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23/08/2017  às 14hs17

Artista Zé Diabo morre aos 87 anos, em Orleans

Foto: Elariana Fernandes

Foto: Elariana Fernandes

Um dos maiores ícones da cultura catarinense, Zé Diabo, o escultor das obras sacras no Paredão de Orleans, faleceu na manhã desta segunda-feira (21), na Cidade das Colinas.

José Fernandes, escultor e pintor autodidata, que ficou conhecido em todo Brasil como Zé Diabo pelas Esculturas do Paredão, residia ainda em Orleans, cidade onde nasceu e constituiu família com Eunice Debiasi, com quem se casou em 10 de julho de 1958 e teve três filhos, Fernando, Denise e Joel.

Na manhã desta segunda-feira, deixa seu nome estampado na cultura do município que completa no próximo dia 30 de agosto 104 anos de emancipação político-administrativa. O artista estava internado na Fundação Hospitalar Santa Otília - FHSO e, segundo a família, faleceu de complicações cardíacas. Nos últimos meses o artista tinha idas frequentes ao hospital.

O Artista

Com traços inconfundíveis, José Fernandes ganhou impactante cognome de Zé Diabo depois de reproduzir um capítulo bíblico do livro de Gênesis na fachada de uma igreja na localidade de Invernada, em Grão Pará – SC. O realismo da obra diante do embate entre o Arcanjo Miguel e Lúcifer surpreendeu ao pároco e aos fiéis mais conservadores da época. Os paroquianos supunham que o artista deveria ter algum acordo com o Demônio para criar obras tão belas e, ainda colocá-las dentro da casa de Deus. Ante isso, Zé Diabo pegou suas obras e as colocou na história.

José Fernandes nasceu em 19 de março de 1930, em Orleans/SC. O caminho artístico de Zé Diabo dá início quando ele, filho de cortador de pedra, auxiliava seu pai numa pedreira próxima ao rio Tubarão.  Autodidata, desenhista intuitivo e católico fervoroso, Zé fitava o paredão de arenito à margem do rio, local no qual passava a Ferrovia Tereza Cristina, e imaginava esculturas que contassem a história bíblica, tão gigantesca como as do Egito antigo.

Zé foi contratado depois de terminar o ensino fundamental para pintar paredes e cenas sacras em igrejas e capelas da região. Na capela de São Bom Jesus de Iguape, na localidade de Rio Belo, está a mais recente obra: o painel central com a crucificação, morte e ressurreição de Cristo e o altar da igreja.

Na década de oitenta, Zé recebeu subsídios da indústria da região e pôde dar início
à sua grande obra, as Esculturas do Paredão de Orleans. Inicialmente, pensava-se que o projeto seria concluído no período de um ano. Os custos da audaciosa obra foram com base no referido tempo, porém, levaram-se oito anos para que se chegasse ao que está hoje cravado nas pedras.

Além da obra que leva o seu nome para todo o país, Zé foi também responsável pela pintura e embelezamento de vários outros locais pela região:

- Pintura na Igreja de Nossa Senhora dos Campos, no KM 107, Lauro Muller.

- Pinturas nas capelas de Santa Clara, Furninhas e Oratório, Orleans/SC.

- Pinturas na igreja de São Miguel Arcanjo, em Invernada, Grão Pará/SC.

- Trabalhos na Capela do Cemitério de Orleans.

- Trabalhos na Igreja Matriz de Nova Veneza SC. (1978)

- Trabalhos na Igreja do Rio do Rastro, SC.(1979)

- Pinturas no Hotel San Francisco, em Orleans.

- Pinturas na Igreja de Nossa Senhora dos Campos, Rio Maior, Urussanga SC.(1989)

- Restauração de imagens da via sacra, em gesso na capela do Rio do Rastro SC.( 1991)

Paredão será reconhecido nos 104 anos da cidade

A pouco menos de 10 dias do início das festividades que celebram os 104 anos da cidade que hospeda as obras esculpidas por Zé Diabo, a obra que o artista deixa em seu legado está como ponto forte da programação.

Em entrevista recente à Rádio Guarujá o prefeito de Orleans, Jorge Koch, afirmou que o objetivo neste ano é enaltecer valor e grandeza da obra que leva o nome da cidade para todo o país. A estrutura que receberá a festa será toda montada aos arredores do Paredão de Esculturas que recebe a partir do dia 30 de agosto a “Semana Cultural” de Orleans.

Em seu perfil nas redes sociais o prefeito postou uma mensagem prestando sentimentos à família. “Passando para registrar o falecimento do escultor, pintor e autodidata José Fernandes, mais conhecido por Zé Diabo, aos 87 anos de idade. José Fernandes foi o escultor das Esculturas do Paredão, pintou várias igrejas em Orleans e região sul de Santa Catarina. Lamentamos seu falecimento, aos familiares nossas condolências”, publicou Koch.

“Tentei escrever na areia, não deu certo, a onda apagou tudo. Tentei na água ela não aceitou, engoliu todas as vírgulas e pontos de interrogação. Experimentei no papel, mas ele se recusou dizendo que nele só escreviam pessoas letradas, e eu não era. Pensei então em escrever no ar, mas este é invisível, logo não se veriam as letras. Então recorri ao fogo, mas ele foi cruel e queimou tudo. Comecei a ficar desesperado, eu tinha que escrever algum recado para o povo, eu sentia que era preciso. Foi então, que me lembrei da pedra. Deu certo, ela aceitou” , José Fernandes (Zé Diabo).

Elariana Fernandes